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19 junho, 2010

"De Pedra" / "Enquanto ela não vem"

"Viver é louco demais. Mas ninguém fala isso, ninguém fala. E eu me sinto tão absurdamente sozinha. Sozinha e hipócrita, porque eu também não vou ligar pra ninguém e falar que o mundo é louco demais.
Eu vou continuar sendo inteligente em almoços, e criando campanhas bonitas com criancinhas inteligentes, e fazendo comentários inteligentes em jantares e parecendo alguém normal com uma pitadinha de humor britânico.
E eu vou continuar absurdamente sozinha aqui, na espera do homem que sold the world. Na espera de comprar o mundo de volta e ordenar que você volte. Volte agora seu louco de pedra."


~ // ~ // ~ //


"Deito no escuro e isso me parece ser o máximo de que sou capaz. Não pensar em absolutamente nada é o limite da inteligência que posso chegar agora.
Sou um mimetismo tão bem desenhado do nada que eu mesma não me encontro nele.
Estou no automático. Vaidade programada. A luz acabou mas tenho um gerador para esses momentos de crise. Um gerador vagabundo que só iluminha uma luzinha lá longe, dizendo pra mim que eu saí mais volto já.
(...)
Foram os homens, falhos, humanos, que fizeram as leis. Hoje não quero respeitar nada. Não por rebeldia, não por nada. Apenas porque querer cansa mais que respirar.
Queria existir sem ter de pagar por isso. Sem ter de apresentar um documento que prove minha existência. Queria existir sem pedir desculpas ou apresentar provas.
Acho tudo um grande porre. Um grandessíssimo porre. De vez em quando, no meio do porre, a gente arruma alguém pra fazer uma coceguinha no nosso coração. Mas aí, depois da coceguinha, a vida volta ainda mais tosca. E tudo volta um porre ainda maior.
Porque ninguém se mantém interessante ou mágico. Mas a gente espera, lá no fundo, perdido, soterrado e cansado, que a vida compense de alguma maneira. E a gente ganha dinheiro, compra roupa, aprende novas piadas, passa protetor labial. Só pra que a vida compense em algum momento.
E eu estou no escuro, com uma leve impressão de que preciso voltar para a vida, porque a vida está acumulando e depois eu não vou dar mais conta de ser eu.
E essas coisas que vou conseguir, essas coisas que eu vou abandonar de vez e até essas coisas que eu nem sei que ainda preciso. Tudo isso aguarda por mim."

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