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16 junho, 2010

"Levei a família inteira para dançar"

"A vida dói mesmo, é fato, sempre doeu, não é novidade. Viver aqui dentro, com tanta gente brigando pra saber qual dos “eus” é mais eu, não é fácil. Mas foda-se, no meio disso tudo dá pra se divertir e dança(...). Então vamos em frente, todos.
Mesmo tendo um demônio horroroso de mil cabeças dentro do meu ouvido mandando eu odiar o mundo para me defender e não ser odiada, mesmo tendo uma velha de mil anos na minha carcaça mandando eu ler um bom livrinho sem forçar muito a vista e não esquecer das meias de lã, mesmo tendo que conviver diariamente com essa criança mimada que nunca se satisfaz com nada e vive me jogando na cara que eu sou incapaz de fazê-la feliz, mesmo ouvindo o dia todo os gemidos da mulher fatal que não agüenta mais o cheiro de mofo do meu corpo, um pouco inutilizado em nome de um enfoque maior no espírito, e, finalmente, mesmo tendo que apanhar o tempo todo da insuportável garota cult que vive me reprimindo de ser feliz com a simplicidade, eu consegui reunir todo mundo, botar dentro do meu Peugeot 206 todo amassado, porque a adolescente rebelde anda barbeira pra cacete ultimamente, e ir para o primeiro lugar escuro com música que aparecesse.
(...)
Sabe quem mais apareceu? A rejeitada, aquela idiota que passou quase que uma vida chorando e não se sentindo amada. Foi ela quem mais dançou, pulou e se acabou naquela noite. Quando todo mundo viu a mais fraca de todos se divertindo, tudo ficou muito mais fácil. Afinal, se ela consegue, qualquer um consegue. Foi então que exorcizei meu diabo, coloquei minha criança para dormir, matei minha velha, desliguei minha inteligência, amei minha puta e dei para meu homem.
A noite estava completa porque eu também estava."

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